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Texto de Valdir Uliana
Engenheiro civil, atual subsecretário de Estado dos Transportes e Obras Públicas e pesquisador da história do Distrito do Aracê
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Quem morava perto de uma venda, acabava conhecendo todas as histórias da região. Ali, entre uma pinga e outra, muitas mágoas e “causos” vinham à tona. Eu, sendo filho do dono da venda, então, ouvi e presenciei muitos acontecidos. Eram muitos os fregueses que vinham fazer suas compras e aproveitavam para tomar boas doses de pinga.
Chegavam, cuidavam logo da responsabilidade e ficavam por ali, oferecendo para pagar a última dose a cada um que aparecia. Esta “derradeira” era prenúncio de várias rodadas. Quem pagava uma saideira esperava os companheiros expressarem o famoso “Agora quem paga sou eu!” Esse processo quase sempre terminava em bebedeira.
Uma das figuras que gostava deste ritual era o Angelim Canal. Ele vinha de São Floriano, sempre montado em belos cavalos. Aliás, gostava de uma boa barganha, principalmente com animais. E a venda era sempre um local propício a bons negócios. Era comum ele chegar com um exemplar e voltar com outro depois de uma boa barganha.
Por mais puxado que estivesse na branquinha, duas coisas não aconteciam com o Angelim Canal: tomar manta em um negócio ou cair da sela. Muitas vezes, era difícil para ele montar. Quando um barranco não era suficiente para apoio, alguém o ajudava a subir. Ele inclinava o corpo e partia para casa. Acho até que dormia na sela, mas não caía.
O Angelim chegava de manhã e ficava até o final da tarde no comércio do papai. Como refeição, uma sardinha de lata em conserva misturada com farinha e uma caninha para ajudar a engolir. Outra iguaria que saía muito era linguiça frita no próprio prato de esmalte. Bastava colocar um pouco de álcool, acender e fritar a corda inteira.
Um dia, o Angelim chegou logo pela manhã. Amarrou a montaria na estaca mais distante e lá a deixou. Apesar de ser costume afrouxar a barrigueira, não fez isso, não sei qual a razão. Eu e o Zé, meu irmão, fomos para a escola. Na volta, checamos as arapucas nos locais onde tinha juriti. E depois fomos para a venda ajudar o papai.
Naquele dia, o primeiro serviço foi dar uma mão a um novo freguês, para descarregar algumas bolsas de um burro de carga. Quando chegamos perto dos animais amarrados, percebemos que o cavalo do Angelim estava inquieto. Como era um bicho manso, estranhamos. Prestamos atenção e vimos que seu pipiu estava preso pela barrigueira.
Certamente, na hora em que foi selado, devia estar com o “instrumento” armado. Chamamos Angelim, que o soltou. Começou urinar e foi impressionante o tempo que durou e a quantidade que colocou para fora. O líquido fez um pequeno riozinho, escorrendo até um bueiro que ficava próximo. Nunca tínhamos visto nada igual.
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Uma das últimas imagens da casa em que meu avô Hermínio Uliana montou sua venda em 1927, herdada por meu pai, local onde passei infância e adolescência. A foto foi tirada antes da reforma que a transformou no saudoso Café da Roça
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