Memória das Montanhas Capixabas: “Aqui não tem homem prá matá onça”


• • •

Depoimento de Élio Casagrande ao jornalista João Zuccaratto

• • •

A equipe do jornal Dia-a-Dia Pedra Azul soube por terceiros que fui a última pessoa a matar uma onça em toda esta grande região do entorno de Forno Grande, onde moro desde criança. Eles me procuraram, atrás de um depoimento sobre o acontecido. É um fato do qual durante muito tempo me orgulhei. Hoje, não mais. Se pudesse voltar no tempo, não repetiria o que agora acho um grande erro. Mas as circunstâncias da época não nos deixavam ver deste modo. Caçar e matar, mesmo que não fosse para alimentação, era o costume de todos.

Peço licença para contar um pouco da minha vida, porque é importante para entender aquela minha atitude. Nasci em 18 de janeiro de 1935, filho de Maria da Penha Meneghetti Casagrande e José Casagrande. Quando minha família mudou para Forno Grande, tudo era coberto de matas. As florestas eram nosso “shopping center”. Por ser o de mais idade, acabei líder da molecada, que me seguia pelas muitas trilhas das redondezas. Caçávamos de bodoque, atirando pedras em passarinhos. Um dia, acertei um pica-pau de cabeça vermelha. Ele caiu mas não morreu. Só ficou tonto. Peguei, levei para casa e tratei. Depois, soltei.

Morte do pai

Mas a vida logo mostrou seu lado difícil. Perdemos nosso pai quando eu tinha apenas sete anos. Ele estava com 36. Deixou minha mãe com a responsabilidade de cuidar de seis filhos, um ainda por nascer. O tio Guerino Casagrande veio morar com a gente. Foi um “pai” com o qual convivemos por uma década. Apesar de menino, tinha responsabilidades de adulto. Não havia completado 10 anos quando passei a tocar uma mula carregada de batatas de onde morava até à casa da minha avó. Era uma viagem de cinco horas: partia às sete da manhã e chegava por volta do meio dia. Almoçava, descansava um pouco e caía na mata.

Pegava o machado, derrubava uma embaúba e fazia gaiola e alçapão para pegar canarinhos. No dia seguinte, mula carregada de café, banana e outros alimentos, além da gaiola cheia, me despedia da avó e das primas e voltava ao Forno Grande. O caminho era difícil. Tinha um sem número de porteiras e, na mata dos Altoé, havia muita cobra. Quando ganhei uma espingardinha de chumbo, resolvi ir atrás de uma paca. Apesar de uma espirrar bem perto, aquilo me assustou e não atirei. Ela fugiu. Mas, como diz o ditado, “um dia é da caça e o outro, do caçador”. Na segunda vez, a cadela Rondela e o cachorro Shimit resolveram o assunto.

Satisfeito, coloquei o animal nas costas e voltei para o sítio. No caminho, encontrei o tio Guerino, que estava à minha procura, devido à grande demora. Ele me acompanhou até em casa e ajudou a dar início à minha fama de caçador. Aí, tomei gosto pela atividade. Com o tempo, passei a ser considerado o maior caçador da região. Inclusive de “caçador de onça”. Uma fama confirmada aos 22 anos de idade. É que, por volta de 1957, uma pintada começou a ser notada nas proximidades, rondando as propriedades e até atacando a criação. No dia de Natal, indo em direção à igreja, notei as pegadas da felina na lama do caminho.

Início da caçada

Ao chegar ao templo, o assunto era um só: a onça que estava vivendo perto. Aproveitei a oportunidade e convidei alguns companheiros para caçar o bicho. Uns se animaram. Outros não quiseram se arriscar. Três resolveram me seguir na empreitada: Ernesto Ventorim, Firmino Cesconeto e meu irmão Plínio. Ernesto teve a idéia de levar o cachorro Combati para deixar amarrado por baixo de uma pedra, de forma a atrair a danada. Eles ficariam em cima e, quando ela aparecesse para pegar a isca, atirariam nela. Não achei aquela idéia boa. Partimos e, a certa altura, dois foram esperar a onça. Eu e mais o Firmino fomos seguindo as pegadas mata adentro.

Animal encurralado

A floresta foi ficando cada vez mais densa, o que nos fez perder os rastros. Então, comecei a prestar atenção aos cachorros. Ouvi os gemidos do Combati e me deu impressão de que tinha sido atacado. Parti rapidamente em direção de onde vinham os ganidos, até encontrar uma grota e perceber que ela estava é fuçando entre as pedras. Latiu e a onça respondeu com um ronco. Gritei para os companheiros que a tinha localizado, mas não acreditaram. Depois de algum tempo, apareceram e comprovaram o que estava dizendo. Bastava fazer com que o Combati latisse para ela responder.

Agora, todos os cachorros estavam ali e fui animando a matilha para latir, como se estivessem atacando. A onça, enraivecida, em dado momento, pulou da toca onde estava protegida, para atacar os cachorros. Foi nessa hora que dei um tiro certeiro nela. Os companheiros me ajudaram a levá-la para fora das pedras e todos demos vivas, como era o costume sempre que se matava algum animal. Uma moradora próxima, ao ouvir os tiros, exclamou:
— Élio matou a onça!
No que foi logo repreendida por outra, que devia ser sua vizinha:
— Aqui não tem homem com coragem prá matá onça.

Mandei chamar o Florindo Altoé para tirar umas fotos da presa. Ela pesava uns 100 quilos. Fizemos uma festa para tirar o couro e repartimos a carne entre todos que queriam provar — por sinal, muito saborosa. O couro, acabei vendendo a um frei que colecionava peles de animais. Fechei negócio por dois mil contos de réis — mais ou menos uns dois mil reais de hoje. Dividi o dinheiro em partes iguais com os colegas que me acompanharam. Depois disso, nunca mais ouvimos falar de onça em toda a região. Passados 40 anos, por volta de 1997, outra começou a rondar pelas matas, atacando cavalos, bois, cabritos e carneiros.

Bicho engordando

O assunto foi notícia de jornal e de televisão. Criou pânico entre algumas pessoas. Como os tempos já eram diferentes, nem se pensou em acabar com ela. Técnicos do Ibama tentaram de todos os modos capturar o animal. Não conseguiram. Ela acabou presa por uns caçadores, que iriam entregá-la. Mas, quebrando dois dentes, conseguiu fugir da gaiola em que a colocaram. E continuou a fazer estragos durante mais uns seis anos, desaparecendo de vez. Em 2005, surgiu mais uma. Ainda está ativa. De vez em quando, ataca as criações. Como é proibido matar, vamos deixando ela engordar.

• • •


O fotógrafo Florindo Altoé registrou Ernesto Ventorim, Nicolau Facine, Firmino Cesconetto, Plínio Casagrande e Élio Casagrande contemplando a onça morta por este último



O senhor Élio Casagrande hoje, aos 73 anos de idade



| Imprimir | Envie esta página |
     

Estalagem Petra - Loja Transverde - Dia-a-Dia Pedra Azul

Copyright © 2003 Aroso Hoteis e Lazer S/A. Todos os direitos reservados.